A Maratona: distância rainha para lesões?

A maratona surgiu com base na lenda de um soldado grego que, em 490 a.C., terá corrido cerca de 40 km desde a localidade de Maratona até Atenas para anunciar a vitória grega sobre os persas, tendo falecido de exaustão após este esforço. A padronização oficial da distância para 42,195 km ocorreu em 1921, após o percurso da maratona de Londres em 1908, que foi ajustado para começar no Castelo de Windsor e terminar no Estádio White City, permitindo à realeza assistir à chegada.

Nas últimas décadas, a maratona deixou de ser uma distância utópica para muitos, verificando-se um número crescente de participantes e de finalizadores, vulgarmente denominados finishers. Um bom exemplo são os números de uma das mais icónicas maratonas mundiais, a de Nova Iorque, que registou um aumento de 47 839 finishers em 2022 para 59 226 em 2025, o valor mais elevado de sempre neste evento. Em Portugal, o maior número de participantes concentra-se nas maratonas de Lisboa e do Porto, sendo que o número de finishers mais do que duplicou entre 2022, primeiro ano de recuperação após a pandemia, e 2025, passando de 3 527 para 9 170 em Lisboa e de 2 874 para 4 763 no Porto.

Apesar disso, muitas pessoas continuam a olhar para a maratona como uma distância mítica, atingível apenas por indivíduos muito treinados e para quem o desporto é uma constante. Outros, sem essa experiência e preparação, propõem-se a enfrentar esta distância como um objetivo de vida e, com maior ou menor dedicação, decidem arriscar. Perante este cenário, importa refletir sobre o que devemos considerar quando nos propomos a aventurar na chamada distância rainha.

Em primeiro lugar, a maratona não deve ser encarada de ânimo leve. É fundamental ter consciência de que se trata de um desafio físico e mental exigente, que requer uma preparação adequada ao longo de um período prolongado. A evidência científica atual demonstra que quase metade dos corredores que se preparam para longas distâncias pode desenvolver uma lesão relacionada com a prática da corrida. A maioria destas lesões ocorre em indivíduos do sexo masculino, com histórico prévio de lesões, aumento rápido ou volume insuficiente de treino semanal, excesso ponderal, menor experiência na corrida e treino realizado em superfícies inadequadas.

Compreende-se facilmente que estas lesões afetam sobretudo o membro inferior, nomeadamente o joelho, a perna, o tornozelo e o pé. Estudos realizados em maratonistas e corredores amadores de longa distância identificam como lesões mais frequentes o síndrome de stress tibial medial, vulgarmente conhecido como canelite, o síndrome da banda iliotibial, a tendinopatia do tendão de Aquiles e a fasceíte plantar.

Se algumas destas lesões são autolimitadas e condicionam apenas alguns dias de treino, outras podem impedir a participação na prova ou mesmo a sua conclusão. Esta realidade gera frustração e desilusão nos corredores, pelo que devem ser adotadas estratégias eficazes de prevenção. Entre elas incluem-se a implementação de uma rotina complementar de treino de força, a realização de aquecimentos estruturados e uma progressão gradual da carga de treino, medidas que se associam a menores taxas de lesão.

Quando estas estratégias não são suficientes, a deteção precoce das lesões, com diagnóstico e tratamento adequados, torna-se fundamental para permitir a continuidade da preparação e a conclusão da prova com sucesso.

Se a maratona for um objetivo pessoal, pense na importância da preparação prévia e na procura de profissionais de saúde especializados na prevenção e tratamento de eventuais intercorrências. Estas podem fazer parte do percurso, mas não devem impedir a realização pessoal que chegar à meta de uma maratona confere a cada corredor.

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Autor: Mafalda Oliveira – Medicina Física e de Reabilitação – OM 61670

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